Nos últimos anos, as canetas emagrecedoras revolucionaram o tratamento da obesidade. Entretanto, a rápida perda de peso proporcionada por esses medicamentos não só pode acarretar riscos nutricionais e musculares, mas também problemas psicológicos, especialmente se o paciente se concentrar exclusivamente na redução de peso sem receber a orientação adequada.
Essa é a mensagem central de um consenso publicado em julho na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology, desenvolvido por três organizações europeias que atuam na área de obesidade e nutrição: a EASO (Associação Europeia para o Estudo da Obesidade), a EFAD (Federação Europeia dos Nutricionistas) e a ECPO (Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade).
Os especialistas analisaram toda a literatura até 2025 e, pela primeira vez, apresentaram diretrizes práticas voltadas para médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas que tratam pacientes utilizando medicamentos à base de incretinas. Essa classe inclui os agonistas do receptor GLP-1, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy), e os agonistas duplos de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida (Mounjaro).
Historicamente, o foco estava apenas no peso perdido. Agora, as novas diretrizes enfatizam a importância de como essa perda ocorre.
“O documento destaca a relevância do tratamento em equipe. Muitas pessoas acreditavam que bastava tomar essas medicações para resolver o problema. Contudo, não é suficiente emagrecer de qualquer maneira; é essencial que essa perda ocorra de forma saudável para assegurar uma boa condição física”, afirma o endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).
Para o nutrólogo Guilherme Giorelli, professor coordenador da pós-graduação em Nutrologia do Einstein Hospital Israelita, essa publicação reflete uma nova realidade no cotidiano clínico.
“Estamos diante de medicamentos extremamente eficazes para tratar obesidade. De repente, o paciente que inicia o uso dessas medicações sente-se mais saciado e com menos fome. Isso certamente contribui para que ele consuma menos alimentos. Porém, quem come menos deve priorizar uma alimentação melhor. Isso requer atenção redobrada”, explica.
A diminuição do apetite pode levar os pacientes a ingerirem quantidades insuficientes de proteínas, vitaminas, minerais e fibras. Como resultado, uma parte da perda de peso pode resultar em redução da massa muscular, aumentando o risco de desnutrição e comprometendo a funcionalidade física, especialmente entre os idosos.
O documento sugere que durante o processo de emagrecimento os pacientes devem consumir pelo menos 60 gramas de proteína diariamente, distribuídas entre as refeições. Quando necessário, suplementos como whey protein ou shakes podem ser utilizados para alcançar essa meta.
Outra recomendação crucial é garantir uma ingestão diária mínima de 25 gramas de fibras para ajudar a evitar constipação, um efeito colateral frequentemente relatado.
“Uma ingestão adequada de proteínas ajuda a prevenir ou até mesmo reverter a perda de massa magra. Além disso, consumir fibras adequadamente melhora o funcionamento intestinal”, comenta Moura.
Além disso, é aconselhado que os pacientes bebam entre 2 a 2,5 litros de água por dia. Isso se deve ao fato de que muitos tendem a perder também a sensação de sede ao reduzirem o apetite, aumentando assim o risco de desidratação.
O consenso ainda alerta sobre as possíveis deficiências nutricionais que podem ocorrer. Indivíduos com obesidade frequentemente já apresentam carências vitamínicas antes do início do tratamento e uma drástica redução na ingestão alimentar pode agravar essa situação.
Os autores enfatizam a importância do monitoramento dos níveis nutricionais de ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco em pacientes considerados mais suscetíveis. Para aqueles cuja ingestão calórica permaneça abaixo das 1.200 calorias diárias, considerar suplementação com multivitamínicos pode ser pertinente.
Efeitos adversos como náuseas, vômitos, refluxo gastroesofágico e alterações intestinais não devem ser subestimados. O consenso sugere que em vez de interromper imediatamente o tratamento devido a esses sintomas desagradáveis, é preferível gerenciá-los através do aumento gradual da dosagem ou ajustes temporários na medicação e na dieta sempre que possível.
Saúde mental e relação com alimentos
Além das questões nutricionais abordadas no documento, um capítulo inteiro é dedicado à saúde mental. Os autores afirmam que esses medicamentos alteram significativamente a relação dos indivíduos com alimentos e recomendam que profissionais investiguem sinais de ansiedade, depressão e transtornos alimentares junto com mudanças na forma como os pacientes buscam prazer através da alimentação.
Conforme citado no consenso, alguns pacientes relatam uma diminuição da “fome emocional”, redução do chamado “ruído alimentar” e menor compulsão alimentar. No entanto, isso pode ocasionar efeitos colaterais inesperados como perda da identidade ligada à comida ou dificuldades emocionais em lidar com sentimentos não expressos previamente associados à alimentação.
“A comida vai além da simples nutrição; ela ativa circuitos relacionados ao prazer e está intimamente ligada aos relacionamentos sociais e familiares. Quando as pessoas começam a se desvincular desse papel da comida em suas vidas diárias outras questões emocionais podem emergir. Embora isso não aconteça com todos os pacientes candidatos ao tratamento é fundamental prepará-los para essa possibilidade”, ressalta Giorelli.
Ele ainda acrescenta que o foco do tratamento deve ser mais abrangente do que simplesmente atingir um determinado número na balança.
“A saúde não se limita ao peso ideal; envolve bem-estar físico, mental e social. As medicações são aliadas valiosas nesse processo mas os pacientes devem compreender que isso faz parte de um contexto maior envolvendo mudanças nos hábitos e construção de uma vida equilibrada”.





