Edson Braga defende produção mais flexível para atender diferentes mercados

Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos avalia que indústria pode preservar qualidade e eficiência ao adaptar produtos a regiões, culturas e ocasiões de consumo

A padronização permitiu que a indústria de alimentos ampliasse produção, segurança, distribuição e acesso. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, a próxima etapa pode exigir uma estrutura capaz de manter esses ganhos enquanto adapta parte da oferta a diferentes mercados.

Na sua avaliação, isso não significa produzir uma formulação exclusiva para cada consumidor. A mudança tende a ocorrer em níveis mais amplos, como região, cultura, porção, intensidade de sabor, preço ou forma de preparo.

O desafio está em oferecer diferenças relevantes sem transformar o portfólio em uma operação excessivamente cara e complexa.

Padrões globais não exigem produtos idênticos

Segurança, rastreabilidade, qualidade e processos podem seguir padrões comuns mesmo quando o alimento apresenta adaptações locais.

Um molho, por exemplo, pode manter a identidade da marca e variar em intensidade ou ingredientes conforme o mercado. Porções, formatos e formas de consumo também podem mudar.

Para Braga, empresas globais podem compartilhar tecnologia e conhecimento sem impor uma única fórmula para todos os países.

Isso permite preservar a identidade da marca enquanto o produto se aproxima dos hábitos locais.

Flexibilidade industrial pode reduzir o custo da variedade

Cada novo SKU aumenta matérias-primas, embalagens, estoques, setups e planejamento. Por isso, simplesmente multiplicar versões tende a elevar custos e desperdícios.

Uma alternativa é trabalhar com bases comuns e introduzir diferenças mais perto do final do processo.

Molhos, temperos, recheios, formatos e embalagens podem ser alterados sem reconstruir toda a operação.

Esse modelo permite ampliar variedade sem transformar cada versão em um produto completamente independente.

Food service pode complementar a fábrica

A aproximação entre indústria e restaurantes amplia essa possibilidade.

Etapas que exigem maior precisão podem ser realizadas na fábrica, enquanto montagem, finalização e ingredientes locais permanecem no ponto de venda.

Bases, molhos, fermentações e pré-preparos chegam com maior consistência, e a cozinha concentra esforços na experiência final.

Essa divisão também pode reduzir a dependência de mão de obra altamente especializada em cada unidade.

A fábrica assume processos técnicos. A operação final preserva flexibilidade e proximidade com o consumidor.

Dados ajudam a identificar quais diferenças valem a pena

Nem toda adaptação gera valor.

Informações de vendas, recompra e comportamento regional podem mostrar quais mudanças realmente afetam preferência ou conveniência.

Porção, formato e ocasião de consumo podem ser tão importantes quanto a própria formulação.

Uma mesma pessoa pode buscar experiências diferentes no café da manhã, almoço, viagem ou jantar em família.

Por isso, conhecer o contexto de consumo pode ser mais útil do que apenas criar versões para diferentes perfis demográficos.

O objetivo é oferecer escolhas relevantes sem gerar complexidade desnecessária.

Plataformas podem organizar portfólios com menos desperdício

Outra possibilidade é desenvolver arquiteturas de produto compartilhadas.

Uma mesma base pode originar diferentes versões de massas, molhos, refeições, bebidas ou snacks.

Esse modelo reduz duplicação de matérias-primas, estoques e processos.

A inovação passa a ocorrer também na forma como os produtos são estruturados, e não apenas no lançamento de novos SKUs.

Para Braga, variedade bem desenhada depende menos de quantidade e mais de uma retaguarda simples e modular.

Produção regional pode ampliar relevância local

Unidades mais próximas dos mercados também podem facilitar adaptações a ingredientes, sazonalidade e hábitos regionais.

A empresa mantém padrões comuns de segurança, tecnologia e qualidade, mas permite ajustes mais próximos do consumidor.

Essa organização combina conhecimento compartilhado com maior sensibilidade local.

O objetivo não é fragmentar a operação, mas evitar que eficiência dependa de tratar diferentes mercados como se fossem iguais.

O desafio é adaptar sem perder consistência

Para Edson Braga, a indústria não precisa abandonar aquilo que aprendeu sobre padronização.

Segurança, qualidade e produtividade continuam fundamentais.

A evolução está em tornar o sistema menos rígido onde a diferença realmente cria valor.

Isso significa preservar padrões essenciais, compartilhar processos e adaptar apenas aquilo que melhora a experiência.

Durante décadas, a indústria aperfeiçoou a capacidade de produzir o mesmo alimento milhões de vezes.

A próxima competência pode ser atender públicos diferentes sem transformar variedade em descontrole operacional.

By Canoas Informa