Com o avanço da idade, a atualização da vacinação se torna uma estratégia fundamental para evitar doenças severas, internações hospitalares e a diminuição da qualidade de vida. Após os 60 anos, o corpo humano passa por transformações naturais que impactam o funcionamento do sistema imunológico, tornando os indivíduos mais vulneráveis a infecções e suas complicações.
Esse fenômeno é denominado imunossenescência, caracterizado pela queda progressiva na capacidade de defesa do organismo. O médico Alfredo Gilio, coordenador da Clínica de Imunizações do Hospital Israelita Einstein, explica: “Assim como ocorre com a perda de força muscular e outras funções corporais ao envelhecer, o sistema imunológico também sofre um processo de envelhecimento. Isso resulta em uma maior suscetibilidade às infecções e uma resposta menos eficaz a elas após os 60 anos.”
Diante desse cenário, é vital manter a caderneta de vacinação atualizada. A médica Isabela Ballalai, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), ressalta: “As vacinas são essenciais para estimular o organismo a produzir anticorpos, proporcionando proteção quando as pessoas entram em contato com agentes infecciosos.”
Além da imunossenescência, muitos idosos lidam com doenças crônicas como diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares, fatores que podem aumentar o risco de complicações. Gilio aponta: “A influenza em um adulto jovem saudável é muito diferente daquela enfrentada por uma pessoa acima dos 60 anos. O risco de pneumonia, hospitalização e até morte é significativamente maior.”
A vacina contra influenza destaca-se como a principal recomendação para essa faixa etária, especialmente nos períodos de alta circulação de vírus respiratórios. A aplicação deve ser realizada anualmente e integra o calendário nacional de imunizações do Ministério da Saúde.
As vacinas pneumocócicas também são importantes para prevenir pneumonias causadas pelo pneumococo, que representam um risco significativo nesse grupo etário. Entretanto, na rede pública, esse imunizante está disponível apenas para idosos acamados ou aqueles que residem em instituições de longa permanência. A vacinação contra a Covid-19 continua sendo recomendada para pessoas acima dos 60 anos e é oferecida exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Gilio acrescenta: “A maioria dos casos graves e falecimentos por Covid-19 ainda se concentra nessa população. Portanto, as doses de reforço são cruciais a cada seis meses.”
No SUS, o Calendário Técnico Nacional de Vacinação para Idosos abrange imunizações contra hepatite B e, em situações específicas, inclui as vacinas dupla bacteriana (difteria e tétano), febre amarela, tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) e varicela. Aqueles com acesso ao setor privado devem considerar se vacinar contra herpes-zóster — uma condição dolorosa resultante da reativação do vírus da catapora — além do vírus sincicial respiratório (VSR), que pode causar infecções respiratórias graves em idosos.
Embora as crianças apresentem o maior número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), os indivíduos com mais de 65 anos têm registrado as maiores taxas de mortalidade, especialmente devido à influenza A. Dados recentes do Boletim Infogripe da Fiocruz indicam um aumento nos casos de SRAG entre idosos em cidades como Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Manaus e Rio de Janeiro.
A situação se torna ainda mais alarmante ao observar os índices de cobertura vacinal: menos da metade dos idosos acima dos 60 anos foi vacinada durante a campanha em 2026 segundo o painel do Ministério da Saúde sobre a Estratégia de Vacinação Contra a Influenza.
Diversos fatores contribuem para essa realidade. Gilio comenta: “Persiste uma forte crença de que vacina é um assunto exclusivo das crianças. Muitas pessoas não percebem que a vacinação também deve ser parte dos cuidados com a saúde na idade adulta e no processo de envelhecimento.”
A falta de informação desempenha um papel relevante nessa questão. Ballalai observa que muitos idosos desconhecem a existência de um calendário vacinal específico para sua faixa etária: “Essa geração cresceu sem vacinas direcionadas aos adultos. Por isso é crucial que médicos e serviços de saúde aproveitem cada consulta para revisar a situação vacinal.” Para ela, a percepção reduzida do risco também influencia esse quadro.
“É desafiador buscar prevenção quando não se reconhece o risco. Quando uma doença deixa de ser percebida como uma ameaça real pelas pessoas, tende-se a negligenciar a vacinação,” explica Ballalai.
A boa notícia é que nunca é tarde demais para atualizar o histórico vacinal. Aqueles que não têm certeza sobre quais vacinas receberam ao longo da vida devem buscar orientação médica para revisar seu histórico imunológico. Gilio conclui: “Cada internação pode acarretar uma perda significativa na autonomia do idoso. Prevenir doenças através da vacinação é fundamental para preservar independência e qualidade de vida durante o envelhecimento.”
