Ebola à Vista: O Brasil Está em Risco? Compreenda a Situação

No último fim de semana, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), anunciou que o surto do vírus na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda foi classificado como uma emergência de saúde pública de importância internacional, o nível mais elevado de alerta da organização.

O líder da OMS também ressaltou que a situação atual não atende aos critérios para ser considerada uma “emergência pandêmica”, conforme as diretrizes dos Regulamentos Sanitários Internacionais. Contudo, expressou séria preocupação com a velocidade e a extensão da propagação do vírus, que já contabiliza mais de 500 casos e aproximadamente 130 mortes suspeitas.

Especialistas afirmam que, neste momento, não há risco significativo de que o Ebola se espalhe pelo Brasil, como tem ocorrido nos países africanos. Leonardo Weissmann, infectologista no Hospital Regional Jorge Rossmann em São Paulo e mestre em Ciências, Doenças Infecciosas e Parasitárias pela Universidade de São Paulo (USP), explica que as características do patógeno limitam sua disseminação global:

“Embora não se possa descartar completamente a possibilidade de um viajante trazer um caso importado em um mundo globalizado, o Ebola não é transmitido pelo ar. A infecção ocorre através do contato direto com sangue, secreções ou outros fluidos corporais de indivíduos infectados ou falecidos pela doença. Isso restringe drasticamente sua capacidade de propagação quando comparado a vírus respiratórios como a influenza ou o SARS-CoV-2, responsável pela Covid-19.”

André Bon, coordenador da Infectologia do Hospital Brasília e especialista na Rede Américas, compartilha dessa visão ao afirmar que o risco de importação de um caso para o Brasil atualmente é “muito baixo”:

“As orientações da OMS são voltadas especificamente para as províncias e países vizinhos à área afetada. O aspecto que merece atenção agora é o contexto social da região afetada, que dificulta o trabalho das autoridades sanitárias na realização de diagnósticos e contenção do surto. Além disso, há preocupações sobre casos identificados em outras províncias da RDC e entre viajantes que retornaram da Uganda. No entanto, essas questões são mais relevantes para a região próxima ao surto.”

Na quinta-feira passada, o diretor-geral da OMS destacou vários fatores que justificaram a declaração de emergência internacional. Entre eles estão a quantidade significativa de casos e óbitos já registrados; a ausência de vacinas ou tratamentos disponíveis para a variante do Ebola conhecida como Bundibugyo; além da detecção do vírus em grandes centros urbanos na RDC.

Tedros também mencionou mortes entre profissionais da saúde como indicativo de transmissão relacionada aos serviços médicos; observou que a província afetada, Ituri, apresenta um movimento populacional considerável e ainda enfrenta uma situação “altamente insegura”, marcada por intensificação dos conflitos desde o final do ano passado.

A infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas em São Paulo, afirma: “O risco do Ebola atingir o Brasil é considerado baixo. Entretanto, dado que a OMS declarou uma emergência internacional em saúde pública, isso implica algum nível de risco para outros países. Portanto, embora não seja zero, é baixo. Minha maior preocupação são os casos relatados em Uganda, especialmente na capital, onde há muitas conexões aéreas.”

Os especialistas concordam que a natureza da espécie Bundibugyo e sua propagação em uma área com sérios desafios logísticos justificam a atenção internacional voltada ao surto.

“É fundamental agora manter sistemas robustos de vigilância epidemiológica para identificar rapidamente casos suspeitos entre viajantes provenientes das áreas afetadas. Isso inclui garantir isolamento imediato, investigação laboratorial e rastreamento de contatos quando necessário. A experiência com surtos anteriores mostra que medidas eficazes de saúde pública podem interromper a transmissão e evitar a disseminação internacional da doença,” afirma Weissmann.

Rosana também enfatiza a importância da vigilância ao lembrar que o período incubatório do vírus varia geralmente entre 2 e 12 dias. Somente após o aparecimento dos sintomas é que um indivíduo pode transmitir o microrganismo.

“É raro que alguém com sintomas clínicos esteja apto para viajar. No entanto, se uma pessoa proveniente dessas regiões desenvolver sintomas durante esse período incubatório aqui no Brasil, é essencial que as autoridades estejam preparadas com um plano de contingência para lidar com esse caso importado.”

By Canoas Informa

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