Um novo estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, sugere que o uso de pílulas anticoncepcionais hormonais pode estar ligado a um aumento nos episódios de compulsão alimentar em algumas mulheres. A pesquisa foi publicada na revista científica JAMA Network Open e representa a primeira investigação em grande escala sobre a relação entre esses medicamentos e a alimentação emocional.
Este trabalho foi conduzido de forma longitudinal, acompanhando 422 mulheres ao longo do tempo. As participantes faziam parte do MSU Twin Registry, uma pesquisa mais ampla envolvendo milhares de gêmeos no estado de Michigan. Todas elas utilizavam contraceptivos orais combinados, que contêm hormônios sintéticos de estrogênio e progestina.
As cartelas dos anticoncepcionais incluíam entre 21 e 24 dias com pílulas ativas seguidos por um intervalo de 4 a 7 dias com pílulas inativas (placebos). Essa metodologia forneceu aos pesquisadores uma oportunidade valiosa para examinar as mudanças nos relatos de compulsão alimentar durante os períodos em que as participantes estavam sob tratamento hormonal ativo.
Por um período contínuo de 49 dias, os cientistas monitoraram manifestações de alimentação emocional, um tipo de compulsão alimentar caracterizada pelo consumo excessivo de alimentos em resposta a emoções negativas.
Os resultados indicaram um aumento significativo da alimentação emocional nas mulheres que estavam tomando as pílulas ativas em comparação com aquelas que usavam as pílulas inativas. Essa tendência foi observada tanto no grupo total quanto entre aquelas que apresentavam um histórico prévio de compulsão alimentar.
Os pesquisadores ressaltam que estudos anteriores já sugeriam que os hormônios presentes nas pílulas poderiam influenciar o risco de compulsão alimentar nas mulheres. Um dos mecanismos possíveis envolve interações relacionadas aos sistemas de recompensa e apetite associados aos hormônios ovarianos e à compulsão alimentar.
“Os hormônios ovarianos exercem forte influência sobre os sistemas dopaminérgicos e opioides, que afetam a ingestão, o prazer e o desejo por recompensas, como alimentos altamente palatáveis, frequentemente consumidos durante episódios de compulsão. Pesquisas menores mostraram aumento na ativação das vias de recompensa em resposta a estímulos alimentares após a ovulação e em mulheres que usam contraceptivos orais combinados”, afirmaram os autores no artigo.
A principal autora do estudo, Kelly Klump, professora na Universidade Estadual de Michigan, enfatiza que o tratamento ainda é considerado seguro para a maioria das mulheres:
“Esses resultados são significativos ao evidenciar o potencial impacto negativo das pílulas anticoncepcionais orais combinadas nas mulheres. Contudo, é importante ressaltar que nem todas as participantes apresentaram episódios de compulsão alimentar. Esses métodos são seguros para muitas mulheres, e o risco parece estar mais concentrado naquelas com outros fatores predisponentes”, explicou Klump.
Além disso, é importante notar que este estudo teve caráter observacional. Esse tipo de pesquisa analisa duas variáveis — neste caso o uso dos medicamentos e os episódios de compulsão — buscando entender como se relacionam. Embora possam revelar associações relevantes, não conseguem estabelecer uma relação causal definitiva devido à possibilidade da interferência de outros fatores.
A pesquisadora responsável pelo estudo reforçou a necessidade de mais investigações amplas para validar essa relação e identificar melhor quem está em risco, com o objetivo de desenvolver abordagens médicas mais personalizadas para as mulheres.
Outro achado relevante do estudo foi que o ato de registrar diariamente os episódios de compulsão alimentar — conhecido como automonitoramento — contribuiu para reduzir esse comportamento entre as participantes, mesmo aquelas sob uso das pílulas hormonais ativas.
“Identificamos que o automonitoramento se mostrou uma ferramenta eficaz para ajudar a minimizar os riscos entre as mulheres avaliadas. Quanto mais conseguirmos equipar as mulheres com ferramentas adequadas e educar os profissionais da saúde sobre esses riscos, mais efetivo poderá ser o cuidado prestado”, concluiu Kelly Klump.
