Com o corte de tarifas ou a ampliação de cotas de exportação previstos pelo acordo ao longo de 15 anos, o agronegócio será o maior beneficiado no Brasil pelo acordo Mercosul-União Europeia. Segundo um estudo do Ipea, as carnes e óleos vegetais, como o de soja, são os produtos mais promissores nesse cenário.
De acordo com as projeções, o agronegócio terá um aumento de exportações de US$ 6,2 bilhões até 2040. No ano passado, a União Europeia comprou US$ 25 bilhões em produtos do campo brasileiro.
O coordenador de estudos da Diretoria de Comércio Internacional do Ipea, Fernando Ribeiro, estima que haverá um aumento de 2% na produção do agronegócio, equivalente a cerca de US$ 11 bilhões. Ele ressalta ainda o impacto geopolítico da aproximação de duas regiões que formam um mercado de 700 milhões de pessoas em meio à guerra comercial entre EUA e China.
Todos os setores da economia envolvidos no acordo têm um potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,46%, representando um acréscimo de US$ 9,3 bilhões. O Brasil seria o país com o maior ganho relativo no PIB, muito superior aos da União Europeia (0,06%) e dos demais países do Mercosul (0,20%, em média). Além disso, o acordo resultaria em um aumento de 1,19% nos investimentos europeus no Brasil e um ganho de 0,41% no salário real.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec), o acordo permitirá a venda de 99 mil toneladas de carne bovina do Mercosul para a Europa a cada ano, com tarifas iniciais de 7,5%. O Brasil tem uma cota para cortes nobres que possibilita exportar até 10 mil toneladas por ano com uma tarifa de 20%, a qual será eliminada pelo acordo.
A empresa Minerva Foods, já exporta carne bovina in natura e processada, juntamente com subprodutos, para o mercado europeu a partir de suas unidades nos quatro países do Mercosul. A companhia espera aumentar a competitividade de seus produtos com o acordo a fim de conquistar novos mercados na Europa.
Ricardo Faria, dono da Granja Faria, a maior produtora de ovos do país (com 4,8 bilhões de ovos por ano), já habilitou uma unidade em Minas Gerais para exportar ovos para a Europa. A cota estabelecida pelo acordo é de 3 mil toneladas de ovos processados e mais 3 mil de albumina (proteína da clara).
O empresário, que possui a holding Global Eggs com unidades na Espanha e nos EUA, habilitou unidades no Uruguai para vender aos europeus de acordo com o acordo. As exportações de ovos do Brasil para a UE enfrentavam barreiras sanitárias desde 2018, mas as unidades têm sido habilitadas individualmente desde o final de 2025.
“O acordo cria grandes oportunidades para as exportadoras expandirem seu portfólio. Nós nos adiantamos para habilitar as plantas. Aqueles que forem mais rápidos, com a habilitação em mãos, irão se beneficiar mais rapidamente dessa situação”, disse Faria, conhecido como o “rei do ovo”.
Uvas
Faria destaca que o Brasil alcançou um recorde de exportação de ovos em 2025 (40 mil toneladas, um aumento de 121% em relação a 2024) devido à crise do produto nos EUA. No entanto, as vendas diminuíram significativamente devido às tarifas de 50% impostas por Donald Trump.
Agora, há a possibilidade de a Europa ocupar esse espaço, inclusive na venda de produtos de maior valor agregado, como ovos férteis. No entanto, Faria considera a cota estabelecida no acordo pequena, uma vez que será dividida entre os outros países do Mercosul: Argentina, Paraguai e Uruguai.
As tarifas impostas pelos EUA em 2025 afetaram as exportações de uvas da Agrivale para o país. A empresa, localizada em Petrolina (PE), é a terceira maior exportadora de uvas do Brasil, produzindo anualmente 25 milhões de quilos, sendo 65% de uvas verdes, 20% pretas e 15% vermelhas. Apenas 25% desse total é exportado, sendo que um quinto vai para a Europa.
O gerente de Comércio Exterior da Agrivale, Aníbal Campos, acredita que a União Europeia pode superar mercados tradicionais, como o Reino Unido. Com tarifas entre 8% e 14% sobre o produto, o retorno dos exportadores é afetado, tornando o mercado europeu menos competitivo. No entanto, com o acordo que eliminará as tarifas sobre a uva em breve, a Europa se torna mais atraente.
Campos prevê um aumento nas vendas da Agrivale para a Europa de aproximadamente R$ 33 milhões e destaca o acesso direto aos supermercados europeus como um diferencial. O acordo pode tornar as uvas brasileiras mais competitivas em relação às do Peru, que já são isentas de tarifas na UE e são as principais concorrentes no mercado europeu.
