O ex-diplomata dos Estados Unidos Ricardo Zuniga acredita ser improvável que seu país aplique qualquer tipo de sanção ao Brasil no ano eleitoral e que a reação de Lula ao ataque à Venezuela era esperada. Mas faz um alerta: o governo brasileiro deve atuar com calma e reconhecer que a situação com os EUA mudou.
Ao longo de três décadas, Zuniga atuou como diplomata dos EUA e ocupou cargos de chefia em embaixadas nas Américas e na Europa, incluindo um período de cinco anos como cônsul-geral dos EUA em São Paulo. Ele foi ex-secretário assistente adjunto principal no Departamento de Estado para o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental na gestão de Joe Biden e foi conselheiro para Américas de Barack Obama de 2012 a 2015.
Confira os principais trechos da entrevista de Ricardo Zuniga a BBC Brasil:
Postura do Brasil
“A postura que ele [Lula] anunciou é bem conhecida por parte do Brasil, em diferentes governos. Uma posição conhecida quando se está falando de intervenção na América do Sul. Governos de centro, direita, de esquerda, mais ou menos, como forma estratégica, são contra utilização de forças estrangeiras na América do Sul.
Claudia Sheinbaum (presidente do México), uma figura relevante para o Trump em termos de proximidade, também condenou (a prisão de Maduro), mas com mais cautela, porque ela tem que manter uma relação muito mais próxima com os EUA do que com o Brasil.
Pode haver, sim, um efeito negativo. Mas o Brasil tem que balancear muitos interesses. Um deles é a questão de quem está controlando o governo em Caracas e como chegaram a esse controle.
Ninguém vai lamentar a saída do Maduro. Isso é outra verdade. A forma como foi feito está levantando dúvidas, no entanto, em outras partes do mundo”.
Cautela na Europa
“A Europa tem que se preocupar com um possível ataque contra a Groelândia e Dinamarca. Eles não vão lamentar a saída de Maduro; também estavam contra ele e têm forte interesse numa mudança política na Venezuela. Boa parte da droga que sai da Venezuela vai para a Europa.
É também por causa do momento. Eles estão focados em avaliar se vale a pena criticar os Estados Unidos quando existe um problema muito mais sensível e grave para eles dentro de casa”.
Donald Trump
“Oliver Stuenkel [analista político e professor da FGV] fez uma observação muito astuta de que os governos democráticos também têm que se preocupar com a possibilidade de um ataque dos Estados Unidos, tanto quanto os governos autoritários. Isso representa uma mudança no cálculo dos governos em toda a região.
Os interesses dos Estados Unidos aparecem claramente em mensagens públicas da Casa Branca, como a afirmação de que ‘the Western Hemisphere is ours’, ou seja, ‘o Hemisfério Ocidental é nosso’.
É uma mensagem muito diferente de dizer que são parte das Américas e do hemisfério ocidental e que vão trabalhar para assegurar [estabilidade]. A interpretação correta é que os Estados Unidos estão preparados para atuar de forma bélica para proteger e avançar os seus interesses, sejam ou não conforme os interesses dos seus aliados. Isso é algo muito novo”.
Interferência nas eleições
“Ele [Trump] obviamente interferiu em Honduras e vai interferir em outras. Ele vai tentar, provavelmente no caso da Colômbia, apoiando a oposição de direita. É possível que ele faça a mesma coisa no Brasil.
Devo dizer: esse ambiente cordial entre o presidente Lula e Trump é verdadeiro também. E ele é uma pessoa guiada pelas relações pessoais que ele tem. Então é possível que [a tentativa de influenciar a eleição] não tenha a mesma forma.
No Brasil este vai ser um fator na campanha, mas há outros fatores que poderiam ser muito mais importantes que essa relação.
Século XIV
“O fundamento do pensamento do presidente Trump é de que o século 19 foi o século dourado dos EUA, com controle continental. Ele acha que essa foi a melhor época dos Estados Unidos e está recriando isso agora.
Não há dúvidas de que o objetivo da administração Trump é desmantelar o sistema de alianças dos Estados Unidos e impor esse mundo dividido em três partes: uma parte para os Estados Unidos, outra para a Rússia, outra para a China.
Isso não condiz com os interesses do país moderno que são os EUA, que têm interesses fortes em nível mundial.
A economia não é a que existia no passado e os Estados Unidos não podem viver num mundo de hostilidades permanentes, nem com os vizinhos nem com os parceiros a nível global.Essa agressividade e esse tom, que são emblemáticos desta administração, não são sustentáveis para além da administração do presidente Trump”.
