Após semanas de crescente animosidade, o papa Leão 14 e o ex-presidente Donald Trump trocaram críticas diretas, saindo do campo das insinuações para um confronto aberto. No último domingo (12), Trump chamou o pontífice de “terrível” e “fraco”, ao que Leão 14 respondeu na manhã seguinte, afirmando: “Não tenho receio da administração Trump. Continuarei a proclamar a mensagem do Evangelho”.
Este é o mais claro embate entre os dois desde que Robert Prevost se tornou papa, em maio do ano passado, sendo o primeiro americano a assumir a liderança da Igreja Católica.
A declaração de Leão 14 foi feita durante um voo de Roma rumo a Argel, capital da Argélia, onde ele iniciaria uma viagem de dez dias pelo continente africano.
O papa destacou: “Não sou um político e não desejo debater com ele [Trump]. Não creio que a mensagem do Evangelho deva ser manipulada como alguns estão fazendo. Vou continuar a me manifestar contra a guerra e a promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre as nações para encontrar soluções.” Ele também enfatizou que “muitas pessoas estão sofrendo atualmente, muitos inocentes perderam suas vidas e é necessário alguém se levantar para afirmar que existe um caminho melhor”.
Horas antes dessa troca de mensagens, Trump publicou uma extensa postagem em sua rede social criticando o papa por ser “fraco em relação à criminalidade e desastroso na política externa”. Ele ainda acrescentou: “Não quero um papa que considere aceitável o Irã possuir armas nucleares. Não quero um papa que critique os EUA por atacar a Venezuela”.
Além disso, Trump insinuou que Leão 14 deveria demonstrar gratidão por ter sido escolhido como papa apenas por ter nascido nos Estados Unidos, afirmando: “Eles [a Igreja] acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com Donald J. Trump”.
Esse tipo de ataque é considerado inédito nos últimos tempos. Embora tenha havido críticas anteriores de papas como Francisco à política imigratória do primeiro governo Trump e de João Paulo II à invasão do Iraque por George W. Bush, nunca antes um presidente americano havia dirigido palavras tão contundentes contra um líder religioso.
Em seguida, Trump fez outra provocação ao publicar uma imagem gerada por inteligência artificial onde aparecia vestido como Jesus, com uma mão apoiada na cabeça de um homem aparentemente enfermo e com a bandeira dos EUA ao fundo. Essa publicação foi removida algumas horas depois de suas redes sociais. Mesmo assim, o ex-presidente declarou que não se desculparia com o papa.
A hostilidade contra Leão 14 ocorre após várias semanas em que o papa clamou pelo fim dos conflitos no Irã fomentados pelos EUA e Israel. No último sábado, ele conduziu uma vigília na Basílica de São Pedro, onde condenou o uso de linguagem religiosa para justificar guerras. “A ilusão de onipotência que nos cerca está se tornando cada vez mais imprevisível”, afirmou.
No dia anterior, ele disse: “Deus não abençoa nenhum conflito” e ressaltou que “discípulos de Cristo jamais se aliam àqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas”.
<pAinda na semana passada, Prevost sugeriu aos cidadãos — sem especificar qual país — que pressionassem seus “congressistas” e “autoridades”, comunicando seu desejo pela paz.
Recentemente, surgiram informações sobre uma reunião no Pentágono realizada em janeiro, onde teria ocorrido pressão sobre o Vaticano através do seu embaixador para alinhar-se às políticas militares dos EUA. O site The Free Press relatou uma referência ao papado de Avignon no século 14, quando o rei francês teve um “antipapa” em oposição ao papa em Roma. O Pentágono afirmou que se tratou apenas de uma conversa “respeitosa”.
No cenário italiano, as críticas feitas por Trump ao pontífice foram seguidas por mensagens de apoio do presidente Sergio Mattarella e da primeira-ministra Giorgia Meloni. Oficialmente essas manifestações foram direcionadas à viagem do papa ao continente africano.
Meloni postou no Instagram: “Em meu nome e do governo italiano, expresso minha gratidão ao papa Leão 14 e votos de sucesso nesta jornada. Que seu ministério contribua para resolver conflitos e restaurar a paz interna e internacional.” Horas depois ela declarou publicamente que as palavras de Trump sobre o pontífice eram inaceitáveis: “O papa é líder da Igreja Católica; é normal e correto que ele clame pela paz e condene todas as formas de guerra.”
A primeira-ministra Meloni se apresentou como aliada assim que Trump retornou à Casa Branca e tinha sido vista como uma possível intermediadora entre os EUA e a União Europeia; contudo, nas últimas semanas ela tem sido menos explícita em seu apoio ao ex-presidente americano.
A Conferência Episcopal Italiana, correspondente à CNBB brasileira (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), também repudiou os comentários feitos por Trump. Em nota oficial mencionaram: “Ressaltamos que o papa não é um adversário político, mas sim sucessor de Pedro”. A declaração ainda acrescentava: “Em tempos marcados por conflitos internacionais e tensões globais, sua voz representa um apelo essencial à dignidade humana, ao diálogo e à responsabilidade.”
