Desvendando o bloqueio naval: funcionamento e implicações na realidade

Desde que a guerra começou no Irã, uma de suas principais repercussões foi o fechamento do Estreito de Ormuz, vital para o transporte de aproximadamente 20% do petróleo mundial. Desde então, Donald Trump tem se esforçado para reabrir essa passagem e mitigar os impactos na economia global. No entanto, agora é o presidente norte-americano quem está dificultando o trânsito na área – mas qual a razão por trás disso?

É importante ressaltar que o estreito nunca esteve totalmente vedado. O Irã permite a navegação de alguns petroleiros de aliados estratégicos, embora isso ocorra mediante o pagamento de um “pedágio”, que pode alcançar até US$ 2 milhões por embarcação.

Além disso, os próprios navios iranianos continuaram a operar livremente, garantindo uma fonte crucial de receitas para o país. De acordo com dados da empresa Kpler, o Irã tem exportado em média 1,85 milhão de barris diários.

<pEntretanto, na última segunda-feira (13), Trump decidiu também restringir esse tráfego. Em uma postagem na plataforma Truth Social, ele declarou: "Eu instrui nossa Marinha a buscar e abordar todos os navios em águas internacionais que tenham pago pedágio ao Irã. Nenhum navio que pague um pedágio ilegal terá passagem segura em águas abertas".

A abordagem do presidente americano se assemelha à estratégia que ele adotou em janeiro contra a Venezuela, focando no estrangulamento financeiro.

Ao bloquear as rotas para as embarcações, Trump atinge uma significativa fonte de renda do governo iraniano, considerando que o petróleo representa cerca de 10% a 15% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Em entrevista à Fox News, Trump afirmou: “Não vamos permitir que o Irã obtenha lucros vendendo petróleo para aqueles que eles preferem e não para quem não gostam”, explicando que a meta do bloqueio naval era garantir a passagem de “tudo ou nada” pelo estreito.

Especialistas analisam que tanto as declarações quanto as ações de bloqueio visam forçar o Irã a aceitar um acordo de paz nas condições dos Estados Unidos, algo ainda não concretizado nos últimos dias.

Como funcionaria um bloqueio naval imposto pelos EUA? O manual das regras jurídicas para operações navais do Comando Naval dos EUA de 2022 define bloqueio como “uma operação beligerante destinada a impedir embarcações e/ou aeronaves de qualquer Estado – inimigo ou neutro – de entrar ou sair de portos e áreas costeiras sob controle de um Estado inimigo”.

Trump inicialmente indicou que a Marinha americana iniciaria imediatamente o processo de bloqueio; porém, no domingo (12), ele comentou à Fox News que essa ação “pode levar algum tempo, mas deverá ser implementada em breve”. Ele descreveu essa medida como “tudo ou nada”.

Numa atualização na rede social X, o Comando Central dos EUA (Centcom) anunciou que daria início ao bloqueio por volta das 11h desta segunda-feira (horário de Brasília).

O comunicado informou: “O bloqueio será aplicado sem distinção contra embarcações de todas as nações indo para e vindo dos portos e áreas costeiras do Irã, incluindo todos os portos iranianos no Golfo Arábico e no Golfo de Omã”.

Adicionalmente, foi mencionado que as forças americanas não impediriam o tráfego livre das embarcações dirigindo-se a locais fora da jurisdição iraniana e que avisos formais seriam enviados às embarcações comerciais antes da implementação do bloqueio.

Trump assegurou ter apoio internacional para executar essa operação, embora não tenha especificado quais países estariam envolvidos. A BBC confirmou que o Reino Unido não participará dessa ação.

Além disso, Trump mencionou à Fox News que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ofereceu assistência para “limpar” o Estreito de Ormuz e sugeriu que em breve a via marítima estaria novamente livre. Ele declarou: “Entendo que Reino Unido e outras nações estão enviando navios caça-minas”.

Todavia, três especialistas jurídicos nos EUA alertaram à BBC sobre possíveis violações do direito marítimo decorrentes desse bloqueio naval. Um deles afirmou até mesmo que tal ação militar poderia infringir o atual acordo temporário entre EUA e Irã assinado em 7 de abril.

A tática adotada por Trump pode se revelar arriscada.

Embora interrompa uma importante fonte econômica para Teerã, ao restringir ainda mais o fluxo petrolífero pelo Estreito de Ormuz, os preços da commodity podem disparar novamente. Isso resultaria em pressão adicional sobre a inflação global e nos Estados Unidos.

Desde domingo último, os preços do Brent — referência internacional — já haviam aumentado mais de 8%, superando os US$ 100 por barril.

Pelo lado financeiro, analistas apontam também que este bloqueio pode levar países dependentes do petróleo da região, especialmente a China — principal compradora dessa commodity — a adotar uma postura mais ativa visando influenciar positivamente as negociações com Teerã. Pequim teria interesse direto na normalização do fluxo energético.

Ainda assim, esse bloqueio pode comprometer seriamente o delicado cessar-fogo estabelecido entre EUA e Irã nas últimas duas semanas.

No domingo passado, a Guarda Revolucionária iraniana advertiu que qualquer embarcação militar se aproximando do Estreito de Ormuz seria considerada uma violação do cessar-fogo e tratada com severidade.

O regime iraniano classificou as ações dos Estados Unidos como “ilegais e uma clara demonstração de pirataria”.

By Canoas Informa

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