Saúde

Gerenciar os níveis de colesterol após um infarto é crucial para prevenir futuros problemas cardíacos.

Manter o colesterol sob controle após um infarto é crucial para prevenir futuros problemas cardíacos. Entretanto, muitos pacientes ainda enfrentam dificuldades em atingir os níveis ideais de LDL, conhecido como colesterol “ruim”.

Diante dessa realidade, uma equipe de pesquisadores brasileiros decidiu explorar se a utilização de aplicativos poderia auxiliar na tomada de decisões médicas e na supervisão dos pacientes após as consultas, visando melhorar o controle do LDL. Denominado SAPPHIRE-LDL, esse estudo foi divulgado em julho na JAMA Cardiology.

Ao longo de seis meses, os pesquisadores monitoraram 1.465 indivíduos com doenças cardiovasculares ateroscleróticas que frequentaram 28 ambulatórios, tanto públicos quanto privados, em diversas regiões do Brasil. Dentre os participantes, 68,1% já haviam sofrido um infarto anteriormente.

Nos centros que implementaram a tecnologia como parte do atendimento, tanto médicos quanto pacientes se beneficiaram do suporte digital. Em contraste, os outros locais continuaram a seguir o modelo tradicional de acompanhamento. No final da pesquisa, foi constatado que aqueles que utilizaram a estratégia digital apresentaram uma probabilidade 86% maior de alcançar a meta desejada para o LDL.

Resultados do estudo

A meta estabelecida no estudo baseou-se nas diretrizes recomendadas para pacientes com alto risco cardiovascular. Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose de 2025, este grupo deve reduzir os níveis de LDL em pelo menos 50% e mantê-los abaixo de 50 mg/dL.

Após seis meses de acompanhamento utilizando a abordagem digital, foram observados resultados mais positivos tanto no controle do LDL quanto na intensificação das terapias.

Entre os pacientes que contaram com o suporte da tecnologia:

  • 23,5% conseguiram atingir a meta de LDL abaixo de 50 mg/dL;
  • A média de redução do LDL foi de 17,6% em comparação ao início do estudo;
  • 69,6% receberam prescrição para terapia combinada, ou seja, indicação para utilizar mais de um medicamento para baixar o colesterol, principalmente estatinas associadas à ezetimiba.

No grupo que seguiu o atendimento convencional:

  • 13,4% alcançaram a meta do LDL abaixo de 50 mg/dL;
  • A média da redução foi de 11,9%;
  • 29,6% receberam indicação para terapia combinada.

A análise comparativa entre os grupos revelou que os pacientes que usaram tecnologia tiveram uma chance significativamente maior (86%) de alcançar a meta estabelecida para o controle do LDL.

Karla Espírito Santo, cardiologista e líder em Estudos Descentralizados e Modelos Inovadores da ARO, esclarece: “Isso não implica que o colesterol tenha caído 86%. O percentual representa uma probabilidade aumentada de atingir os níveis recomendados em relação aos pacientes tratados pelo método convencional.”

Raul Santos, cardiologista e pesquisador da Organização Acadêmica de Pesquisa (ARO) do Einstein Hospital Israelita, complementa: “A tecnologia possibilitava identificar quando um paciente estava fora da meta do LDL e sugeria ajustes no tratamento com medicamentos alternativos às estatinas. Além disso, ter acesso ao resultado durante a consulta ajudou os médicos nas decisões sobre as prescrições.”

No ambulatório, o processo começava antes da consulta; uma amostra sanguínea era coletada da ponta do dedo para medir os níveis de LDL. Em cerca de sete minutos, o resultado era enviado para a plataforma epScience utilizada pelos profissionais.

Com esses dados disponíveis durante a consulta médica, era possível verificar se o paciente estava dentro dos parâmetros ideais. Na epScience também eram registrados os medicamentos prescritos e oferecidas sugestões terapêuticas baseadas nos níveis encontrados e nas diretrizes recomendadas. A decisão final sobre as prescrições permanecia sob responsabilidade dos médicos.

Pós-consulta, o acompanhamento seguia através do aplicativo epYou dedicado aos pacientes. Este app fornecia lembretes sobre a medicação a ser tomada e acesso a conteúdos educativos além da opção de comunicação com a equipe médica. Caso fosse necessário, também havia disponibilização para consultas via telemedicina.

As equipes médicas recebiam relatórios periódicos pela epScience sobre o controle dos níveis de LDL e padrões das prescrições realizadas nos serviços. Essas informações auxiliavam na identificação das dificuldades enfrentadas pelos pacientes no tratamento.

Karla enfatiza: “A tecnologia conseguiu transformar dados dispersos em ações concretas voltadas ao cuidado dos pacientes.”

Desafios no controle do colesterol

Embora tenham sido identificados avanços por meio da tecnologia empregada no acompanhamento dos pacientes, ainda assim 76,5% não conseguiram atingir o nível desejado para o LDL após seis meses. Os pesquisadores indicam que essa dificuldade pode ser atribuída à complexidade em alcançar uma meta tão rigorosa apenas com os medicamentos convencionais usados para controlar o colesterol.

Raul observa que muitas vezes estatinas e ezetimiba não são suficientes sozinhas; alguns pacientes podem precisar recorrer a tratamentos mais potentes como inibidores de PCSK9. No entanto, esses medicamentos têm custo elevado e acesso limitado no Brasil representando um entrave que a abordagem digital por si só não consegue solucionar.

Limitações do estudo

Todavia, essa pesquisa tem suas limitações. Segundo Raul Santos, seis meses é um período insuficiente para determinar se as melhorias observadas no controle do colesterol persistirão ao longo prazo ou se resultarão na diminuição na incidência de infartos ou AVCs.

Karla acrescenta que muitos dos centros inclusos no estudo eram especializados em cardiologia, limitando assim a generalização dos resultados à atenção primária à saúde. Por outro lado, as evidências mostraram eficácia semelhante tanto nos serviços públicos quanto privados analisados indicando potencial uso nos dois contextos.

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Canoas Informa

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