Um grupo de doze organizações médicas e científicas, tanto brasileiras quanto internacionais, solicita à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a proibição completa dos implantes hormonais manipulados no Brasil, conhecidos popularmente como “chips da beleza”. O apelo foi formalizado na Carta do Rio de Janeiro, que foi divulgada durante a realização do 20º Congresso Mundial de Menopausa, realizado na cidade do Rio de Janeiro.
Entre as instituições que assinam o documento, destacam-se a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e a Sociedade Internacional da Menopausa (IMS). Também estão na lista a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), a Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS), a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), a Associação Brasileira de Climatério (Sobrac), além das sociedades brasileiras de Mastologia (SBM), Reprodução Humana (SBRH), Cardiologia (SBC) e Hepatologia (SBH).
As entidades expressam preocupação com os implantes, frequentemente promovidos como uma solução para sintomas relacionados à menopausa, alterações na libido, emagrecimento e aumento muscular. Elas afirmam que esses produtos não foram submetidos a estudos clínicos adequados que comprovem sua eficácia ou garantam sua segurança.
A carta também critica o crescimento de um modelo comercial que envolve processos como produção em larga escala, formação de estoques, capacitação de profissionais para prescrever os produtos e divulgação nas redes sociais. Em uma investigação realizada em maio, foi revelado como esse mercado se mantém ativo apesar das restrições impostas pela saúde pública. A reportagem identificou médicos que prescrevem os implantes, oferecem cursos sobre seu uso e possuem laços comerciais com farmácias de manipulação.
Documentos obtidos durante essa investigação mostraram que implantes que custam cerca de R$ 200 podem ser revendidos para pacientes por preços variando entre R$ 4 mil e R$ 12 mil.
Agora, as organizações solicitam que qualquer proibição seja acompanhada por uma fiscalização mais rigorosa, além do fortalecimento da notificação sobre efeitos adversos e responsabilização dos envolvidos na cadeia comercial.
Debate
A discussão sobre o tema se arrasta desde outubro de 2024, quando a Anvisa tomou a decisão de suspender a manipulação, venda, propaganda e uso dos implantes hormonais manipulados. Após receber diversos recursos administrativos de médicos, clínicas e farmácias, a agência reconsiderou sua posição no mês seguinte, substituindo a proibição total por regras mais restritivas.
A comercialização e o uso dos implantes hormonais manipulados baseados em esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos para objetivos estéticos ou aumento da performance esportiva seguem proibidos. Contudo, a manipulação continua permitida sob condições específicas para outras finalidades terapêuticas.
No mesmo levantamento publicado em maio, ficou evidente como essa permissão possibilitou que implantes com propriedades anabolizantes continuassem sendo oferecidos como tratamento para menopausa, endometriose e síndrome dos ovários policísticos, mesmo sem evidências robustas que comprovem sua eficácia nessas situações.
As sociedades médicas argumentam que essa autorização excepcional para manipulação individualizada não deve servir para perpetuar um mercado repleto de produtos sem os estudos necessários exigidos para medicamentos registrados. “Prescrição individualizada não significa experimentação sem evidência e segurança”, afirmam.
A nova carta solicita que a Anvisa proíba não apenas a manipulação mas também a formação de estoques, comercialização, distribuição, publicidade e uso dos implantes hormonais manipulados em qualquer circunstância.
Preocupação médica
Dentre as principais preocupações está o método de administração desses implantes. Ao serem inseridos sob a pele, eles podem liberar hormônios por longos períodos. Diferentemente dos tratamentos orais ou em gel – que permitem ajustes na dosagem ou interrupção fácil – os implantes nem sempre são completamente removíveis. Isso pode dificultar uma resposta imediata caso uma paciente apresente reações adversas ou seja exposta a concentrações excessivas de hormônios.
Adicionalmente, as entidades ressaltam que não existem estudos suficientes que garantam qualidade farmacêutica, estabilidade, esterilidade ou controle da liberação hormonal desses produtos. Questões sobre segurança em longo prazo permanecem sem resposta, incluindo potenciais riscos cardiovasculares, hepáticos, trombose, AVC e possíveis implicações para as mamas e o endométrio.





