O Prêmio Nobel da Paz foi concedido pela Comissão Norueguesa do Nobel à jurista sul-africana Navanethem “Navi” Pillay, de 85 anos, em reconhecimento ao seu trabalho na promoção da paz e do Direito Internacional.
O anúncio realizado em Oslo ressaltou a contribuição de Pillay para a criação de uma “ordem jurídica global mais inclusiva”. O comitê destacou que o sistema internacional, fundamentado em normas, enfrenta pressões significativas, além de uma transição preocupante rumo a uma “política de poder”. Essa mensagem foi interpretada por analistas como uma crítica à agenda política do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cujas ações têm intensificado os ataques a instituições e princípios internacionais desde seu retorno ao cargo. Logo após a divulgação do prêmio à jurista, Washington impôs sanções ao Tribunal Penal Internacional (TPI).
“A laureada deste ano desempenhou um papel crucial para garantir que crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio fossem levados à Justiça”, afirmou Jorgen Watne Frydnes, presidente do Comitê Norueguês do Nobel, ao revelar o nome da vencedora. O comunicado enfatizou ainda a importância da atuação de Pillay para ampliar “o alcance e o impacto do Direito Internacional”.
A nota divulgada pelo comitê também destacou: “Por meio da concessão deste prêmio, lembramos ao mundo que o Estado de Direito, tanto em nível nacional quanto internacional, é fundamental para assegurar a paz e resolver conflitos sem violência. A paz requer justiça.”
Nascida em Durban em 1941, durante o regime do apartheid na África do Sul, Pillay vem de uma família de origem tâmil indiana. Crescendo em um contexto de discriminação e exclusão promovidas pelas políticas governamentais da época, ela superou adversidades e se formou em Direito pela Universidade KwaZulu-Natal. Posteriormente, continuou seus estudos com mestrado e doutorado na Universidade de Harvard.
Pillay se destacou como a primeira mulher não branca a abrir um escritório de advocacia em Durban e ganhou notoriedade ao assegurar que os presos políticos na penitenciária de Robben Island tivessem acesso a advogados em 1973. Em 1995, um ano após Nelson Mandela ser eleito nas primeiras eleições democráticas da África do Sul, ela foi nomeada ministra da Suprema Corte, tornando-se assim a primeira mulher não branca a alcançar essa posição.
Sua carreira dedicada à defesa dos direitos humanos tomou um novo rumo no cenário internacional quando Mandela a indicou para integrar o Tribunal Penal Internacional para Ruanda no ano seguinte. Esse tribunal foi responsável por julgar os autores do genocídio ocorrido em 1994 no país africano.
No ano de 1998, ela contribuiu significativamente ao estabelecer que o estupro poderia ser considerado um ato constitutivo de genocídio. Desde então, ocupou diversas posições nas Nações Unidas, incluindo a função de alta comissária para os Direitos Humanos desde 2014 e membro da Corte Internacional de Justiça (CIJ).
Surpresas e Dedicações
Segundo informações do presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Pillay não atendeu à ligação que avisaria sobre sua premiação antes do anúncio oficial. Naquele momento, ela estava participando de uma conferência envolvendo advogados e juízes de direitos humanos no Palácio da Justiça de Nuremberg, local onde líderes nazistas foram julgados após a Segunda Guerra Mundial. Stephen Rapp, ex-embaixador dos EUA para questões relacionadas a crimes de guerra, relatou ter compartilhado a notícia com aproximadamente 120 pessoas presentes na sala que reagiram com aplausos entusiasmados.
Em sua primeira aparição informal após o anúncio, Pillay improvisou um discurso onde provocou Trump e a opositora venezuelana María Corina Machado. Ela mencionou que poderia dividir o prêmio com Trump: “Muito obrigado! Se vocês aplaudirem mais um pouco, eu vou dividir esse prêmio com Trump”, brincou ela entre risos dos presentes. “Então eu realmente não sei nada sobre isso. Minha pergunta é: é verdade?”
Posteriormente, durante uma coletiva mais formal no evento, dedicou seu prêmio às “vítimas de crimes internacionais” e aos defensores dos direitos humanos ao fazer um apelo aos líderes globais pela observância das leis internacionais. Embora não tenha mencionado diretamente Trump em suas críticas, fez alusão às políticas implementadas pela administração americana.





